S. João Baptista tem muito a dizer aos servidores da Liturgia e, de modo especial, aos acólitos. Vejamos um pouco:

1. S. João Baptista era filho de Zacarias, sacerdote no templo de Jerusalém. Pertencia, portanto, à tribo de Leví, entre todas dedicada ao culto de Deus. Enquanto que os membros das outras tribos tinham recebido uma parte do território da Palestina, os levitas declaravam com honra: o Senhor é a minha herança! «Servir o Senhor com alegria» era o seu lema. Não será esse também o lema dos acólitos, verdadeiros «levitas» do nosso tempo?

2. O apelido de «Baptista», pelo qual o Precursor era conhecido, alude à actividade que o caracterizava: ele baptizava no Jordão, em sinal de penitência, aqueles que acolhiam a sua mensagem de conversão. Assim preparava para o Senhor um «povo bem disposto», decidido a frutificar na prática do bem. Os acólitos devem estar particularmente atentos a esta exigência de conversão e preparação para o encontro com o Senhor na celebração litúrgica. Não esqueçam que as túnicas brancas com que participam na acção sagrada são uma memória visual da túnica imaculada que receberam no dia do seu próprio Baptismo.

3. S. João Baptista, tão austero, sóbrio e penitente, é um «profeta da alegria». Todos recordam o encontro de Nossa Senhora com Santa Isabel. Estavam ambas grávidas: Maria de Jesus, Isabel de João. Quando Maria saudou Isabel, o seu filho, ainda no ventre materno, exultou de alegria sentindo a aproximação de Jesus que nossa Senhora levava escondido dentro de si. Esta alegria pela proximidade do Messias sempre acompanhou o Precursor. Trinta anos mais tarde, ele declara-se contente com os primeiros sucessos de Jesus e não sente ciúmes ao ver que alguns dos seus discípulos o abandonam para seguir o novo Mestre. Também os acólitos devem considerar como alegria suprema o privilégio de estar bem perto de Jesus, presente mas escondido, na Santíssima Eucaristia. E a alegria deles deve aumentar quando cresce o número dos seguidores de Jesus.

4. Na imagem de S. João Baptista que se venera nas nossas igrejas, o santo Precursor aparece normalmente a apontar para um cordeirinho. Todos sabem porquê: foi ele quem, indicando Jesus aos seus discípulos, disse: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo». Estas palavras repetem-se em cada Missa. Que bom seria que, pela forma como servem na liturgia e como vivem na família, na escola e na sociedade, todos os acólitos apontassem para Jesus e levassem os outros a descobrir «o Cordeiro de Deus»!

5. «Convém que Ele cresça e eu diminua»: estas palavras, com que João Baptista se situava em relação ao Messias, devem ser assumidas igualmente por todos os servidores do culto: padres, diáconos, acólitos, leitores, músicos e cantores... Todo o desejo de protagonismo na acção litúrgica contradiz esse ideal e dificulta, em vez de ajudar, a participação frutuosa dos fiéis na obra divina da salvação que, sob o véu dos sinais, se celebra e vive na Liturgia. A atitude dos acólitos pode traduzir de forma exemplar - ou contradizer - este «convém que Ele cresça e eu diminua»: quando a sua atitude é recolhida e os seus olhares estão fixos no pólo da acção litúrgica (a sede, o ambão, o altar, conforme os diferentes momentos da celebração) eles ajudam toda a assembleia a concentrar-se na presença de Cristo, o verdadeiro fulcro da celebração; do mesmo modo, a sua desatenção, o seu olhar vagabundo, o seu alheamento do mistério celebrado, a sua atitude irreverente e, por vezes, galhofeira contagiam quase irresistivelmente toda a assembleia e dificultam a experiência do encontro com o Senhor Jesus.

6. Os profetas sempre denunciaram a falta de coerência entre o culto e a vida. Não basta apresentar-se impecável no serviço do altar, com túnicas de brancura imaculada. Há que ter o mesmo cuidado e exigência na vida de família, na escola, no emprego e na praça pública. Também aí se requer a «brancura» dos costumes e atitudes. Os acólitos, que têm João Baptista como modelo e referência, recordarão a sua denúncia corajosa da violência, da hipocrisia, do descaramento, da imoralidade pública... Porque amava a verdadeira vida, não temeu a morte. Perdeu a cabeça, mas não a razão. E tendo sido mártir da verdade, recebeu a coroa da vitória e vive para sempre com Aquele que é a Verdade. Os grupos de acólitos de que hoje a Igreja precisa hão-de ser escola de vida e viveiro de testemunhas corajosas da verdade.

Secretariado Diocesano de Liturgia do Porto
Voz Portucalense, nº 22 – 6 de Junho de 2001